terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os Novos Evangélicos


FONTE: Revista Época - Edição 638

Irani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.

Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade” (leia o quadro na última pág.). Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Proclamando Jesus: uma narrativa e um narrador de peso

por Daniel Oudshoorn

[retirado do site Bacia das Almas de Paulo Brabo]

Se é para os cristãos redescobrirem sua identidade única e falarem uma linguagem que tenha a capacidade de transformar Babel, devem estar fundamentados naquilo que Mortimer Arias chama de “a lembrança subversiva de Jesus”. Jesus é o coração da fé cristã e por isso a narrativa de Jesus deve estar no centro da proclamação cristã. Jesus representou o ponto alto de uma tradição profética, e foi mestre em usar a linguagem de modos inovadores. Ele era mestre em contar histórias, e a igreja deve observar o exemplo deixado por ele.

Jesus narrava constantemente a história de Israel; ele trazia à memória do povo de Deus a sua história, e ao contar essa história capacitava o povo a participar ativamente de sua própria história. Ele recontava a história de Israel de modo a demolir as visões de mundo de seus ouvintes e remoldá-las ao redor de si mesmo. Jesus tinha pouco interesse em expressar verdades eternas, mas contava histórias subversivas que exigiam ação imediata.

Porém, embora usasse uma linguagem que suas audiências tomariam por familiar, Jesus imprimia às palavras um novo sentido. Ele falava do perdão dos pecados, da vinda do reino de Deus e da volta de Iavé a Sião, mas proclamava que esses eventos estavam ocorrendo de modos inesperados. Ele narrava “histórias estranhamente familiares, mas com a lição de moral invertida”. Sendo assim, ele tomou os símbolos centrais da identidade judaica (a terra, a família, a Lei e o Templo) e submeteu-os a uma reformulação radical.

Por essa razão, as histórias e parábolas de Jesus só podem ser entendidas à luz do modo como ele vivia. Separada das suas atitudes, a mensagem de Jesus é incompreensível, aparentando ser um completo contra-senso. Jesus aceitou a afirmação de seus discípulos de que era o messias, mas imediatamente a seguir passou a falar de sofrimento, revelando um novo modo de se ser o messias. Jesus afirma que o reino de Deus é chegado, mas revela que ele veio para os pobres e marginalizados. São as curas e os episódios de mesa comunal que interpretam o que Jesus quer dizer quando fala da chegada radical do reino. São os atos de Jesus que confirmam e sinalizam a realidade de suas palavras. A existência inteira de Jesus está mesclada a essa proclamação; seu ensino não pode ser separado de suas ações.

Ao contar histórias subversivas e anunciar o perdão dos pecados, Jesus atrai inevitavelmente a ira das autoridades religiosas e estatais contra ele. Elas tem consciência de que se sua proclamação e modo de vida receberem continuidade, não apenas causarão a reforma do sistema, mas terminarão por invalidar o sistema como um todo. Jesus não apenas questiona os que controlam a moralidade, ele desafia as realidades econômico-políticas que jazem por trás da moralidade. Essencialmente, a mensagem de Jesus abolia tudo que justificava as desigualdades políticas e econômicas. Não é de admirar que ele falasse em parábolas e viajasse com tanta frequência; se tivesse falado claramente e permanecido dentro de Jerusalém, teria sido eliminado muito antes de formar uma comunidade ao redor de si.

Se deve seguir os passos de Jesus, a igreja deve estar firmemente enraizada nas histórias do evangelho e na narrativa mais ampla das interações de Deus com seu povo e com o mundo. A igreja deve proclamar a narrativa de Deus. Se vai chegar a conhecer sua verdadeira identidade, deve lembrar-se de onde veio. Isso quer dizer que os cristãos que fazem parte de igrejas comprometidas com a Cristandade formal ou com Babel devem aprender a contar a narrativa cristã de um modo que se mostre subversivo e incômodo, principalmente e em primeiro lugar, para o próprio povo de Deus. Da mesma forma que Jesus investiu contra marcas da identidade judaica como o sábado, as leis alimentares, a circuncisão e o dízimo, os cristãos dos nossos dias que são seguidores de Jesus devem aprender a atacar os emblemas de identidade que definem as igrejas ocidentais. Num mundo em que o mercado sequestrou os símbolos do cristianismo, a igreja deve descobrir maneiras de recapturar o poder de suas imagens.

Tony Campolo é exemplo de uma voz que tem tentado realizar isso. Num discurso frequentemente citado, Campolo fala sobre pobreza e em seguida lamenta o fato de que os cristãos “não façam merda nenhuma para mudar isso”. Ele prossegue explicando que o que o deixa realmente chateado é o fato de que a maior parte dos cristãos fica mais furiosa por ele ter dito “merda” do que diante de tudo que ele disse sobre pobreza. Campolo subverte aqui um dos emblemas da identidade cristã contemporânea (a convenção de não dizer palavrões) e conclama as igrejas ocidentais a voltarem a uma compreensão da fé fundamentada no evangelho.

Se tem esperança de engajar-se de modo missional com o mundo, a igreja deve contar a história de Jesus e deve encarnar a história de Jesus. Deve recordar a narrativa de Jesus de modo a ser mais uma vez capacitada a viver dentro dela.

domingo, 27 de junho de 2010

Qual é a vontade de Deus pra mim?

por Caio Fábio

Obviamente a vontade de Deus é de Deus.

Sim! A vontade Dele é Dele; e de mais ninguém.

Jesus disse que comia a vontade do Pai, que se alimentava dela.

Ora, se eu tenho muitas vontades e se as exerço de modo pessoal e incompartilhável, que não dizer da vontade de Deus?

“Quem conheceu a mente do Senhor?”

Além disso, o que me separa de Deus em todos os sentidos possíveis é infinitamente mais do que o que separa de um organismo mono-celular.

Assim, Deus se revela às amebas como as amebas podem processar.

Ora, o mesmo Deus faz com os homens!

O problema é o surto humano. Sim! O homem crê que é “capaz de Deus”, e, sobretudo, de dizer aos outros humanos qual seja a vontade de Deus para o outro.

A vontade de Deus é uma só: que nos amemos uns aos outros!

Deus não tem planos profissionais para ninguém. Nem de qualquer outra natureza tópica. O plano de Deus, não importando onde eu esteja, é que eu ame e pratique o amor. O resto é insignificante!

É o que Paulo diz quando afirma: “... ainda que eu...” fale línguas de homens e anjos, ou profetize, ou saiba todas as ciências e adquira todas as sabedorias, ou me entregue às praticas de martírio ou de entrega social de todas as minhas produções aos demais homens necessitados, mas, “se não tiver amor, nada me aproveitará”; e mais: nada será vontade de Deus.

Paulo nunca discutiu nada disso. Sabia fazer tendas. Mas era chamado para pregar. Por isso, tendo dinheiro para entregar-se apenas à pregação, assim fazia. Mas se não tinha, então, fazia tendas, e, pregava nas horas possíveis.

Ou seja:

Paulo tratava tudo com simplicidade, pois, a vontade de Deus era amor, e, amor, cabe em qualquer oficina de tendas.

As pessoas perguntam, referindo-se aos detalhes da vida, como se eu ou qualquer outro ser ameba humano pudéssemos responder: Qual é a vontade de Deus para a minha vida?

Ora, eu posso responder, mas a resposta que tenho a dar não satisfaz as pessoas que querem saber a vontade de Deus como um guia afetivo e profissional das jornadas na Terra.

Então, não sei!... Afinal, nessas coisas, à semelhança de Paulo, apenas uso o bom senso para decidir, e nunca o faço como quem consulta um “guia de jornada”, mas apenas como uma decisão de agora, da circunstancia do existir; e isto, sempre, apenas conforme o espírito do Evangelho, que é amor.

A vontade de Deus são os Seus mandamentos, embora Jesus tenha nos dito que até os mandamentos, sem que sejam vividos em amor, são desagradáveis a Deus; pois, sem amor, todo mandamento não passa de presunção e arrogância.

A vontade de Deus é amor, alegria, paz, bondade, longanimidade, mansidão e domínio próprio!

Se você faz isso entregando o lixo, operando na mais rica clinica de neurocirurgia, ou se o faz pregando como um ensinador da Palavra, não importa; pois, a única coisa que importa para Deus é se você vive ou não o amor como o mandamento de seu ser.

O que Deus quer de mim? Onde quer que eu trabalhe? Com quer que eu case?

Ora, Jesus não respondeu tais perguntas a ninguém!

Quando Pedro quis saber... Jesus apenas disse: “Que te importa? Quanto a ti, vem e segue-me”.

Quanto mais a pessoa se dispõe a andar em amor e fé, sem buscar mais nada, tanto mais ela encontrará uma sintonia fina com Deus e com a vida, e, assim, sem que ela sinta, irá sendo posta no leito do rio de sua própria vida.

É claro que Deus tem a vontade que diz “não”. Mas essa é a não-vontade de Deus. É o que Deus não quer, pois, é o que Deus não é.

Deus não é mentira, nem engano, nem ódio, nem cobiça, nem traição, não injustiça, nem maldade, nem indiferença, nem descrença, nem altivez, nem orgulho, nem arrogância, nem vaidade, nem medo e nem frieza de ser.

Assim, a tais coisas Deus diz “não”, mas não como quem diz a Sua vontade, mas apenas aquilo que não é vontade Dele.

Portanto, a vontade de Deus não é “não”, mas “sim”, embora a maioria apenas pense na vontade de Deus como negação.

Ou seja:

Para tais pessoas Deus é Aquele que diz “Não”.

A proporção, todavia, continua idêntica à que foi estabelecida no Éden. Pode-se comer de tudo, e, apenas diz-se não a uma coisa: inventar a nossa vontade contra essa única coisa à qual Deus disse “não”.

Todas as árvores do Jardim são comestíveis, mas, continuamos discutindo a única arvore proibida, tamanha é a nossa fixação na transgressão como obsessão na vida.

Entretanto, a vontade de Deus é sim, e, para aqueles que desejam fazer a vontade de Deus, e não apenas discuti-la, Deus revela Sua vontade como fé e amor, e, nos diz que se assim vivermos provaremos tudo o que é bom, perfeito e agradável, não porque a vida deixe de doer, mas apenas porque o pagamento do amor transcende a toda dor.

A vontade de Deus é que eu desista das coisas de menino nesta vida e abrace as coisas de um homem segundo Deus.

Agora, se você vai trocar de casa, de carro, de mulher, de emprego, de cidade, de país, de nome — sinceramente, é melhor consultar um bruxo, uma feiticeira ou um profeta que aceite pagamento para contar tal historinha.

Você pergunta a Jesus:

Senhor, qual é a Tua vontade para mim?

Ele responde:

É a mesma para todos os homens. Sim! Que você ame e pratique o amor, pois, sem amor, nada será vontade de Deus para você, ainda que você distribua todos os seus bens aos pobres e entregue o seu corpo para ser queimado em martírio de dignidade pela consciência e pela liberdade.

Dá pra entender ou é difícil demais?

Que tal a gente parar de brincar de vontade de Deus? Vamos?

Chega; não é gente?


Nele, que é a vontade de Deus para o homem,

texto retirado do site www.caiofabio.net

domingo, 20 de junho de 2010

AOS CRENTES MÁGICOS...

por Caio Fábio

Uma das coisas que sempre me impressionaram na natureza humana é a nossa capacidade de criar qualquer realidade que desejemos; e, a seguir, projetá-la em alguém, em alguma coisa, em algum lugar ou individuo; ou ainda sobre uma instituição, seja ela de qual natureza for... — para, então, entregarmo-nos à fantasia... como se aquilo fosse a coisa mais real e genuína possível; até que depois de um tempo..., ao verificar que espinheiros não dão uva, saímos chorando, chocados, lamuriando contra Deus e a existência, sentido-nos enganados; e tudo porque espinheiros dão espinhos e videiras dão uva, embora nós tenhamos teimado em plantar uma natureza e esperando ceifar a outra...

Assim, relembrando que espinheiros não dão uvas, digo:

Toda mentira adoece o mentiroso, e inicia nele uma doença na mente; a doença da fantasia armada e destrutiva; além de que faz dele um ser mau caráter, pois, toda falsificação da realidade é a própria criação do diabo no interior do inventor, do mentiroso...

Não existe boa traição. Toda traição é traição, ainda que seja do policial ao bandido; e a sua conseqüência é que todo traidor fica pior do que qualquer traído, por pior que ele seja; e mais: quanto melhor for o traído, pior ficará o traidor...

Não existe pai e mãe que mereçam ser desonrados. Quem desonra pai e mãe deflagra o mecanismo de autodestruição no ser... Por isto ele não será longevo na alma...

Não existe o lúcido adorador de ídolos... Quem adora a um ídolo fica sempre menor do que ele, até que nele se dissolva...



Ninguém cuja profissão existencial seja perseguir acabará a vida doce...

Quem dissimula com habilidade se torna o diabo de si mesmo para sempre...

Quem dá falso testemunho cria para si mesmo aquilo que falsamente testemunhou...

Todo aquele que julga e decide o destino de alguém, cria para si mesmo o padrão pelo qual Deus o julgará...

Quem entrega os tesouros de sua alma a alguém que não seja confiável, será devorado pelo suíno que receber tais preciosidades como dádivas de um insensato...

Quem não serve copos de água ao sedento jamais beberá da fonte da água da vida...

Quem nada dá a ninguém, esse nunca terá o que seja Graça de Deus...

Quem ama a morte é filho do inferno...

Quem odeia é sócio do diabo na destruição da vida; e com ele compartilhará o mesmo destino...

Quem trama o mal ficará louco e paranóico, e morrerá de suas próprias armadilhas...

Todo aquele que inveja se torna o mais feio dos homens...

O arrogante é o coveiro de sua própria sepultura...

O sedutor vira lesma gosmenta na alma... E ele mesmo morrerá sem se suportar...

Todo aquele que vive para esconder um dia não mais saberá o caminho de volta de seu próprio labirinto de enganos e ocultamentos...

Assim é a vida...

E não há oração, unção, mágica ou poder algum que possam mudar a natureza de tais coisas!

Bem-aventurado o que crê na verdade da realidade e na realidade da verdade!

O que passar disso..., é tentativa de fazer mágica na existência!...




Nele, que nunca nos mandou praticar mágica, pois Ele não acredita em mágica,



Caio
2 de agosto de 2009
Lago Norte
Brasília
DF

Texto retirado do site: www.caiofabio.net

sábado, 5 de junho de 2010

No Brasil, futebol é religião

por Ed René Kivitz


"Dizem que Religião e Futebol não se discute. Será? Em tempos de Copa do Mundo tudo o que diz respeito a futebol é destaque, notícia e discussão. E quando a notícia mistura futebol com Religião?

Um episódio envolvendo os badalados jogadores do Santos aconteceu há algumas semanas e chamou a atenção de todos.

Os craques santistas fizeram uma visita a uma entidade chamada Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com paralisia cerebral. O objetivo era entregar ovos de Páscoa e passar algum tempo com as crianças. Mas, alguns dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e ficaram dentro do ônibus do clube, sob a alegação de que são evangélicos e a entidade era espírita."
(José Lino - Rádio Itatiaia)

Sobre este fato ocorrido em meados de maio 2010, Ed René Kivitz, santista, pastor e cristão escreveu um excelente texto que transcrevo abaixo:

“Os meninos da Vila" pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. Aliás, o mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada em ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e de cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra a prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar os favores de Deus, você está discutindo religião.

Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.
Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, para decidir se deve ou não entrar nela, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Javé, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna, os devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos que pensam e crêem de forma diferente, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os diferentes deixem de existir, pois se tornam iguais a nós, ou pelo extermínio puro e simples, como já aconteceu e ainda acontece ao longo da História, através de assassinatos em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com “d” minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas quando você concentra sua atenção e ação em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade que é comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.

Os valores espirituais agregam pessoas, aproximam os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da solidariedade, na busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero e, inclusive, religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa recheado de carinho, afeto e alegria para uma criança que sofreu a tragédia de uma paralisia cerebral.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pastores Voadores

Desafiando a crise, líderes evangélicos brasileiros investem na compra de aviões particulares


[FONTE: Revista Cristianismo Hoje]

Dizem que um homem pode ser medido pela grandiosidade dos seus sonhos. Se é mesmo assim, um seleto grupo de ministros do Evangelho anda sonhando alto – literalmente. Desde o ano passado, diversos pastores brasileiros andam cruzando os céus em aviões próprios, um luxo antes somente reservado a altos executivos, atletas milionários e sheiks do petróleo. A justificativa para as aquisições, algumas na faixa das dezenas de milhões de dólares, é quase sempre a mesma: a necessidade de maior autonomia e disponibilidade para realizar a obra de Deus, o que, no caso dos grandes líderes, demanda constantes deslocamentos pelo país e exterior a fim de dar conta de pregações e participações em palestras e eventos de todo tipo. Eles realmente estão voando alto.

O empresário e bispo Edir Macedo, dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) tem feito a ponte aérea Brasil – Estados Unidos a bordo de um confortável Global Express, avaliado no mercado aeronáutico por US$ 50 milhões (cerca de R$ 85 milhões). Para comparar, o preço é semelhante ao do Rafale, o caça-bombardeiro francês que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sonha comprar para as Forças Armadas brasileiras. Equipado com sala de estar, dois banheiros, minibar e lavabo, além de um confortável sofá, o jato permite deslocamentos dos mais confortáveis até os EUA, onde Macedo mantém residência, e tem autonomia suficiente para levá-lo à Europa ou à África. O Global, adquirido em setembro numa troca por um modelo mais antigo, veio juntar-se à frota da Alliance Jet, empresa integrada ao grupo Universal e que já possuía um Falcon 2000 e um Citation X, juntos avaliados em 40 milhões de dólares.

Edir Macedo justifica o uso de aviões particulares dizendo que precisa levar a Palavra de Deus pelas nações onde a igreja atua, que já são mais de 120, e também para evitar transtornos aos passageiros dos aviões comerciais, pois sua pessoa costuma atrair muita atenção da mídia. Pode haver também outros motivos. Foi em voos particulares que a Polícia Federal descobriu, em 2005, que deputados e empresários ligados à Iurd transportavam dinheiro em espécie, no episódio que ficou conhecido como o caso das malas. Os valores, explicou a igreja na época, teriam sido arrecadados nos cultos e eram transportados dessa maneira por questão de segurança e praticidade até São Paulo e Rio de Janeiro, onde a denominação tem sua administração.

Já o missionário R.R.Soares, mais discreto que o cunhado Macedo, não fez alarde da aquisição do turboélice King Air 350, em novembro, fato noticiado pela revista Veja.. Avaliado em cerca de R$ 9 milhões, a aeronave transporta oito passageiros. Como tem uma agenda das mais apertadas, Soares viaja praticamente toda semana pelos mais de mil templos que sua Igreja Internacional da Graça de Deus tem no país, além de realizar cruzadas e gravar programas diários para a TV. Ele realmente tem pensado alto: a igreja também mantém parceria com a empresa de aviação Ocean Air, através da qual um percentual sobre cada passagem comprada por um membro da Graça reverte para a denominação.

“Conquista” – O que chama a atenção no aeroclube dos pastores são as justificativas espirituais para a compra das aeronaves. Renê Terra Nova, apóstolo do Ministério Internacional da Restauração em Manaus (AM) e um dos grandes divulgadores do movimento G12 no Brasil, conta que o seu Falcon é fruto de profecias de grandes homens de Deus como o pastor e conferencista americano Mike Murdock. Em abril de 2009, durante um evento em que ambos estavam, Murdock incentivou uma campanha de doações a fim de que Terra Nova pudesse realizar seu “sonho”. Após chamar Terra Nova à frente, ele mesmo anunciou que ofertaria R$ 10 mil reais, atitude logo seguida por dezenas de pessoas. O avião foi comprado em julho. Dizendo-se “constrangido” com a atitude, Terra Nova admitiu que aquele era seu desejo e que se submetia ao que considerava a vontade de Deus. “O Senhor é testemunha que este avião não é para vaidade, mas para estimular que outros ministérios a que também tenham aviões e, juntos, possamos voar para as nações da terra, pregando o evangelho de Jesus. Assim está estabelecido”, diz o líder em seu site.

“Conquista” e “resultado da fé” também foram as expressões usadas pelo pastor Samuel Câmara, da Assembleia de Deus de São José dos Campos (SP), para comemorar a compra de seu King Air C90, de quatro lugares. O religioso, que durante anos liderou a Assembleia de Deus em Belém (PA) – onde montou a Rede Boas Novas, conglomerado de rádio e TV que cobre vinte estados brasileiros –, se diz muito grato a Deus pela bênção, avaliada em R$ 8,5 milhões. Ele espera juntar-se a outros líderes para montar “uma esquadrilha de aviões para tocar o mundo todo”. Ano passado, Câmara também esteve no noticiário pelas denúncias que fez contra supostas irregularidades nas eleições para a presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB).

Mas a aquisição aérea que mais chamou a atenção, dentro e fora do meio evangélico, foi concretizada pelo famoso pastor e apresentador de TV Silas Malafaia, da Assembleia de Deus da Penha, no Rio. Possuir uma aeronave própria era um objetivo anunciado pelo líder já há algum tempo, inclusive em seu programa Vitória em Cristo, um dos campeões de audiência na telinha evangélica. Além dos insistentes pedidos por ofertas para manter-se no ar, Malafaia constantemente tocava no assunto avião em suas falas. O empurrão que faltava foi dado pelo pastor americano Morris Cerullo, outro profeta da prosperidade proprietário de um luxuoso Gulstream G4. Num dos programas, levado ao ar em agosto, Cerullo admoestou os telespectadores a desafiar a crise global e participar de uma campanha de doações ao colega brasileiro – um chamado “desafio profético”, no valor de 900 reais, estipulado graças a uma curiosa aritmética que associava a cifra ao ano de 2009.

Aparentemente surpreso, Silas Malafaia assentiu com o pedido. Não se sabe quanto foi arrecadado a partir dali, mas o fato é que em dezembro o pastor anunciou que o negócio foi fechado por cerca de US$ 12 milhões, cerca de 19 milhões de reais. Trata-se de um jato executivo modelo Cessna com pouco uso. Um “negócio espetacular”, na descrição do próprio. Bastante combatido pela maneira ostensiva com que pede ofertas para seu ministério, o pastor Malafaia, que dirige também a Editora Central Gospel, recorre à consagrada oratória para se defender: “Quem critica não faz nada. Você conhece alguma coisa que algum crítico construiu? Crítico é um recalcado com o sucesso da obra alheia.”

sábado, 1 de maio de 2010

Por que Jesus mandou pregar?

por Caio Fábio


Por que Jesus mandou pregar o Evangelho?

Primeiro devo começar com o que não é objetivo do anuncio do Evangelho, mas que entre a multidão dos discípulos equivocados, é aclamado como sendo parte do objetivo do Evangelho.

Não é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado a fim de fazer as pessoas mudarem de religião.

Nem tampouco para que as pessoas passem a freqüentar um templo, nem para cantarem hinos para Jesus entre chineses ou hindus, esquimós ou índios nus, como dizia o “corinho” da Escola Dominical.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para que o Cristianismo se expanda na Terra. Deus não é cristão, contrariamente ao que alguns dizem: “O Deus cristão é...” assim ou assado...

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para despovoar o inferno e povoar o céu, como se tudo dependesse da iniciativa do “cristianismo” para a salvação humana.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para que os crentes sejam “glorificados” na Terra.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para batizar pessoas usando muita ou pouca água.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para que se discuta com os novos convertidos o resto da vida acerca de quem joio e quem é trigo.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para criarmos impérios de comunicação cristãos.

Nem ainda é objetivo de Jesus que o Evangelho seja anunciado para qualquer coisa que não seja a encarnação do bem do Evangelho no coração das pessoas.

O Evangelho é a noticia de Deus aos homens, a saber: que Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo todo.

Jesus não ergueu nada fora do coração humano, correndo todos os riscos de tal “confiança” na natureza humana, pois, de fato, fora do coração não cabe nada que seja essencialmente reino de Deus.

Qualquer bem do Evangelho será sempre vida. E vida como o ensino e conforme a prática de Jesus, no espírito de tudo o que Ele viveu e, assim, ensinou.

O Evangelho, portanto, antes de tudo é Reconciliação.

Sim! É Reconciliação do homem com Deus, consigo mesmo e com o próximo, mesmo que o próximo seja inimigo, pois, assim como Deus se reconciliou conosco sendo nós inimigos de Deus no entendimento e nas praticas de obras perversas e alienadas, ainda assim Ele nos amou e nos ama, e, unilateralmente se reconciliou conosco.

É Reconciliação com Deus porque Deus a fez e feita está. Assim, não há o que discutir, mas apenas dizer “quero” ou “não quero”.

É Reconciliação do homem consigo mesmo porque Deus o perdoou. Portanto, perdoado está todo homem que creia que está perdoado; e assim viva como quem crê que está perdoado, perdoando outros, como Deus em Cristo o perdoou.

É Reconciliação do homem com seu próximo, pois, quem foi perdoado de tudo, perdoa tudo e segue em amor.

Portanto, é apenas Reconciliação que o Evangelho carrega como objetivo.

Por causa disso, o Evangelho é também Reconciliação do homem com o todo da criação de Deus, pois, se o que existe é de Deus, e nós dizemos que Dele somos, o natural é amar a tudo o que Ele criou, e proteger cada coisa para ter sua própria existência.

Se a pregação gera isto como vida, então é o Evangelho que se está pregando. Mas se não gera, ou é porque quem ouve não quer ou não entende; ou, então, é porque não é o Evangelho que está sendo pregado.

O Evangelho ensina tudo, menos uma religião. Aliás, desde que João disse que na Nova Jerusalém não há santuário que ficamos sabendo que o Evangelho é ateu de religião.

É simples assim.

O Evangelho é o bem das ovelhas de Jesus em todos os outros apriscos.

Ora, o Evangelho pode ser o bem de Jesus até para cristãos, quanto mais para todos os homens.

É ou não é?


Caio

domingo, 25 de abril de 2010

sábado, 13 de março de 2010

O primeiro milagre do heliocentrismo

por Hélio Schwartsman


[Folha de São Paulo, 03/12/2009]

Eu, Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, e Rafael Garcia, repórter do jornal, decidimos abrir uma igreja. Com o auxílio técnico do departamento Jurídico da Folha e do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo Gasparian Advogados, fizemo-lo. Precisamos apenas de R$ 418,42 em taxas e emolumentos e de cinco dias úteis (não consecutivos). É tudo muito simples. Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para criar um culto religioso. Tampouco se exige número mínimo de fiéis.

Com o registro da Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio e seu CNPJ, pudemos abrir uma conta bancária na qual realizamos aplicações financeiras isentas de IR e IOF. Mas esses não são os únicos benefícios fiscais da empreitada. Nos termos do artigo 150 da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a todos os impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda ou os serviços relacionados com suas finalidades essenciais, as quais são definidas pelos próprios criadores. Ou seja, se levássemos a coisa adiante, poderíamos nos livrar de IPVA, IPTU, ISS, ITR e vários outros "Is" de bens colocados em nome da igreja.

Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (já sagrei meus filhos Ian e David ministros religiosos) e direito a prisão especial.

A discussão pública relevante aqui é se faz ou não sentido conceder tantas regalias a grupos religiosos. Não há dúvida de que a liberdade de culto é um direito a preservar de forma veemente. Trata-se, afinal, de uma extensão da liberdade de pensamento e de expressão. Sem elas, nem ao menos podemos falar em democracia.

Em princípio, a imunidade tributária para igrejas surge como um reforço a essa liberdade religiosa. O pressuposto é o de que seria relativamente fácil para um governante esmagar com taxas o culto de que ele não gostasse.

Esse é um raciocínio que fica melhor no papel do que na realidade. É claro que o poder de tributar ilimitadamente pode destruir não apenas religiões, mas qualquer atividade. Nesse caso, cabe perguntar: por que proteger apenas as religiões e não todas as pessoas e associações? Bem, a Constituição em certa medida já o fez, quando criou mecanismos de proteção que valem para todos, como os princípios da anterioridade e da não cumulatividade ou a proibição de impostos que tenham caráter confiscatório.

Será que templos de fato precisam de proteções adicionais? Até acho que precisavam em eras já passadas, nas quais não era inverossímil que o Estado se aliasse à então religião oficial para asfixiar economicamente cultos rivais. Acredito, porém, que esse raciocínio não se aplique mais, de vez que já não existe no Brasil religião oficial e seria constitucionalmente impossível tributar um templo deixando o outro livre do gravame.

No mais, mesmo que considerássemos a imunidade tributária a igrejas essencial, em sua presente forma ela é bem imperfeita, pois as protege apenas de impostos, mas não de taxas e contribuições. Ora, até para evitar a divisão de receitas com Estados e municípios, as mais recentes investidas da União têm se materializado justamente na forma de contribuições. Minha sensação é a de que a imunidade tributária se tornou uma espécie de relíquia dispensável.

Está aí o primeiro milagre do heliocentrismo: não é todo dia que uma igreja se sacrifica dessa forma, advogando pela extinção de vantagens das quais se beneficia.

Sei que estou pregando no deserto, mas o Brasil precisaria urgentemente livrar-se de certos maus hábitos, cujas origens podem ser traçadas ao feudalismo e ao fascismo, e enfim converter-se numa República de iguais, nas quais as pessoas sejam titulares de direitos porque são cidadãs, não porque pertençam a esta ou aquela categoria profissional ou porque tenham nascido em berço esplêndido. O mesmo deve valer para associações. Até por imperativos aritméticos, sempre que se concede uma prebenda fiscal a um dado grupo, onera-se imediatamente todos os que não fazem parte daquele clube. Não é demais lembrar que o princípio da solidariedade tributária também é um dos fundamentos da República.

Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

DE DENTRO DO SER

por Riva Moutinho


Do lado de fora da Floresta uma selva de pedra devora os sonhos de Zé Marinho. Nasceu na rua, cresceu numa favela, aprendeu todas as manhas do ganho fácil do mundo na Febem, onde internado ficou por quase dois anos. Na maioridade decidiu que a cidade não seria o seu lugar. Escolheu uma estrada e caminhou até quando não havia mais fôlego para continuar. Avistou uma floresta, uma caverna; estabeleceu que ali seria seu lugar de morada e dos anos que se seguiram, todos foram na obediência rígida que do mundo se afastaria.

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua no dia que nasceu. Impossibilitado de freqüentar regularmente uma escola, vendia balas, bombons e fazia toda sorte de malabarismos nos sinais a fim de conseguir algum trocado. Um dia voltando para a favela que morava; policiais numa batida de rotina o levaram como suspeito de vender drogas em uma das esquinas da região. Sentenciado a um crime que nunca cometeu, sofreu na Febem e aprendeu que a vida era mais vida pra quem sabia ser esperto e que esperteza significava malandragem e que malandragem era um ato cometido por todos inclusive por engravatados, policiais, políticos, religiosos... mas apenas pessoas como ele pagavam por ela, mesmo sem ter cometido.

Quando o soltaram passou em casa e descobriu que seus pais, que nunca o visitaram, não moravam mais por lá. Sem saber o paradeiro deles e sem, absolutamente, nada; decidiu tentar procurar outro mundo antes que a vontade de desistir do mundo em que vivia tivesse a coragem de se tornar realidade.

No caminho pela estrada escolhida recebeu poucas ajudas, muitos insultos e apanhou várias vezes. Cansado e deitado próximo aos matos na beira da estrada num sol de quase 40 Graus, assustou quando uma senhora de idade bateu a porta do seu carro deixando próximo a ele, uma cesta com bolos, biscoitos e pães, além de muita água e suco. Este gesto o fez agradecer a Deus pela primeira vez em sua vida e o deu forças para caminhar por mais alguns quilômetros até encontrar a floresta que seria, por um longo tempo, seu mundo de sobrevivência.

Anos se passaram, até que um dia Zé Marinho foi surpreendido por um senhor que entrou na floresta para avaliar o local, pois próximo dali havia uma fazenda que ele comprara. Curioso e cuidadoso, seu Beto procurou fazer amizade com Zé Marinho e dia após dia ia descobrindo a história dele. Tentou levá-lo várias vezes para a fazenda, mas todas falharam.

Certo dia, Seu Beto, viu Zé Marinho espiando da janela do lado de fora. Sem assustá-lo chamou-o para tomar um café e, pela primeira vez, depois de muitos anos, ele sentou numa cadeira e, pela primeira vez em sua vida tomou café na mesa como uma família. O choro compulsivo de Zé Marinho encheu o casarão antigo e levou às lágrimas a família de Seu Beto.

Cinco anos mais tarde, Seu Beto faleceu por causa de um infarto fulminante quando caminhava pela sua propriedade. Sua família cumpriu seus desejos pós morte e Zé Marinho permaneceu como administrador da fazenda.

Por muitos outros anos, ele serviu aquela família com toda intensidade do seu ser. Foi pai, amigo, conselheiro, administrador, servo, guarda-costas... e incentivado pela família do Seu Beto, todos resolveram conhecer o lugar de onde Zé Marinho saiu.

Poucas casas naquela favela lembravam seu tempo, nenhuma pessoa daquela comunidade sequer imaginava quem era ele. Com o coração apertado e a voz embargada, Zé Marinho reconheceu, por detalhes, o lugar de onde saiu. Impossível foi conter as lágrimas e uma mistura de sentimentos o envolveu, bem como vontades de rever alguém conhecido ou, quem sabe, seus pais.

Uma senhora deitada na esquina chamou a atenção de Zé Marinho que imediatamente foi ao seu encontro. Procurou saber se estava tudo bem e, tirando tudo o que havia no bolso, entregou a aquela senhora com um sorriso na face.

A intensidade de tantos sentimentos o cansou e o fez dormir pesadamente durante a viagem de volta a fazenda. Acordou apenas para comer alguma coisa numa das paradas do ônibus, onde acabou vendo um senhor magro com roupas muito sujas sentado em um dos bancos, de cabeça baixa. Zé Marinho não disse nada, pegou sua bolsa com roupas no ônibus e entregou para aquele senhor. Uma das filhas do Seu Beto vendo a atitude dele pegou uma boa quantia de dinheiro e deu ao senhor também.

A vida correu dentro da normalidade das responsabilidades da fazenda por muito e muito tempo.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que a senhora que ele ajudou próximo ao local onde morava, era a mesma que o ajudou quando ele estava quase a morte na beira da estrada e que sua atitude a fez procurar ajuda e a rever sua família.

A vida ensinou muito a ele, inclusive a ver Deus contemplando cada criação que Ele fez. Zé Marinho não aprendeu a ingratidão que, insistentemente, tentaram lhe ensinar. Antes procurou fazer para os outros o que com ele, na sua época, a grande maioria não fez.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que o senhor que ele ajudou na rodoviária era o seu pai e que aqueles gestos o fizeram procurar uma clínica onde foi muito bem tratado conhecendo uma família que o empregou como caseiro apenas para lhe dar um lar.

Se por um lado a vida deu ao Zé percalços, por outro lado, Zé deu à vida ações de amor e ensinou que o melhor não é viver uma vida boa, mas fazer a vida ser boa para aquele que Deus chamou de “nosso próximo”.

Riva Moutinho 13/07/2007

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Religião Comportamental

por Riva Moutinho

Depois de conviver por mais de duas décadas com a religião, hoje, faço questão de deixar claro que não faço parte de qualquer religião bem como não tenho que isto seja algo vital para o ser humano, uma vez que a religião serve apenas para afastar os homens de Deus e aliená-los de várias maneiras sórdidas desenvolvidas ao longo do tempo.

Não vou repetir coisas que já escrevi antes, pois pretendo aqui ter outro foco e espero deixar isto claro.

A religião educa (esta é uma maneira educada de falar) o ser humano a criar hábitos religiosos. É o cara que sempre que passa em frente a uma igreja...

A religião educa (esta é uma maneira educada de falar) o ser humano a criar hábitos religiosos. É o cara que sempre que passa em frente a uma igreja católica faz o chamado “nome do Pai”, ou o espiritualista que tem um incenso na casa para cada momento, ou o espírita que adorna os cômodos com imagens, ou o evangélico que ouve apenas músicas do seu grupo religioso, ou os macumbeiros que carregam seus patuás... E por ai vai. Mas a religião faz muito mais que isto, ela cria um comportamento religioso que ultrapassa a realização de rituais ou ritos e vão compor o caráter, a personalidade no indivíduo.

Vou me basear na religião evangélica na qual convivi mais proximamente, no entanto percebe-se que todas as demais promovem a mesma coisa.

O conjunto de regras impostas, às vezes, de maneira bem sutil pelas igrejas evangélicas moldam o caráter dos seus seguidores, promovendo ao final uma verdadeira lavagem cerebral. Digo isto porque percebe-se que tal seguidor abandonou o raciocínio racional e passou a defender o enriquecimento ilícito, por exemplo, como se fosse algo absolutamente normal de se fazer. Chega a tal nível de alienação que se o seu líder for preso pela polícia de algum país vizinho, o seguidor acredita que o que está acontecendo é uma conspiração, uma perseguição religiosa. Coisa esta que já se extinguiu (ao menos aqui no Brasil) há um bom tempo.

Deixando um pouco a análise comportamental entre o seguidor e o seu líder de lado, gostaria de analisar a religião comportamental que acontece entre os seguidores.

Os evangélicos sentem um prazer (quase um orgasmo) por não praticarem o que, eles chamam de “mundo”, pratica. Algumas destas eles mesmos estabeleceram como regras de conduta. Logo eles não bebem, não fumam, não ouvem música secular, não praticam o sexo antes do casamento (ao menos fazem disso um padrão moral); e se sentem acima dos que tais coisas praticam. Definitivamente, eles buscam viverem separados no mundo. Não se misturam. Tal comportamento demonstra que, de fato, o que eles seguem é a religião ou a cabeça (muito das vezes louca) de seu líder religioso. Isto pra mim é fato por um motivo muito simples: Na Bíblia vejo Jesus fazendo justamente o contrário. Ele se mistura, não faz distinção de nenhuma criatura e não se sente melhor do que ninguém, antes, procura ajudá-los em suas necessidades. Jesus não cria uma religião e nem procura adeptos para ela. Ele apenas busca estar e ajudar as pessoas.

Ultimamente entre os evangélicos o verbo “prosperar”, ganhou ares de objetivo único em vida e uma demonstração clara que, se você o alcança, então, de fato, você é um filho de Deus. E o que se estabelece de maneira bem silenciosa é uma concorrência com o chamado irmão ou irmã. Ciúmes, invejas, iras, mentiras, ganância, usurpação... Vale qualquer coisa desde que seja feita de maneira sutil e, principalmente, “com todo amor”. Aliás, os pastores são, de fato, mestres em ensinar tais comportamentos para suas ovelhas.

As amizades geradas, normalmente, são tão firmes quanto um cata-vento em um furacão. É por isto que se você comete o pecado de se “desviar do caminho” ou de desenvolver idéias que contrariem a instituição ou a vaidade de seus líderes; olhares tortos surgem, a pessoa é posta de lado e, dependendo do nível que atingir, poderá ser colocada na “fogueira” e receber o seu comunicado de exclusão. Digo isto por experiência própria, pois não apenas fui excluído da última instituição religiosa a qual pertencia há algum tempo atrás, como fui ameaçado de surra e de morte pelo líder de lá que é visto como um santo perante os seus numerosos seguidores.

De fato, o que se percebe é que a religião moldou o caráter e a personalidade do indivíduo, o qual dificilmente conseguirá extrair toda esta maldade de si, ou antes, dificilmente conseguirá perceber o cheiro fétido dos seus próprios excrementos.

Quando percebem, os religiosos de ontem tendem a virar os não-religiosos de hoje e, com isto, ganham asas que tanto queriam e começam a fazer coisas que antes a religião os proibiam. “Ah!!! Finalmente a liberdade!!!” Por um lado, de fato ganharam a liberdade, mas por outro, dificilmente perceberão que o seu comportamento religioso permanecerá agarrado em suas entranhas, mesmo que já tenham deixado de praticar os antigos rituais.

Dessa maneira, permanecem ciúmes, invejas, iras, mentiras, ganância, usurpação... Permanecem com a capacidade altamente desenvolvida de falarem mal de outrem pelas costas, de levantar falso para o diabo e para Deus contra alguém e, quando são instigados a pedir perdão, escolhem o subterrâneo escuro para realizarem tal ato a fim de manterem seus “status quo”. Sobem em edifícios grandiosos a fim de ecoarem falsas verdades como penas ao vento, mas em seus atos de arrependimentos são incapazes de resgatar uma pena que seja. São homens viris em promoverem o caos e se safarem com extrema esperteza, mas são frangas cacarejantes em assumirem seus atos.

Fica extremamente claro que a sordidez existente nos ambientes religiosos se derrama sobre os chamados não-religiosos simplesmente porque a grande maioria ou acredita que a questão é simplesmente abandonar rituais, ou porque, de fato, não são homens (independente do sexo) suficientemente capazes de abandonarem a mentalidade infantil e o estado degenerativo de suas personalidades.

A verdade, então, permanece sempre sendo disfarçada porque os conchavos permanecem existindo e a transparência continua sendo abnegada.

Seja qual for o lado: religioso ou não-religioso todos carecemos de uma dose cavalar de vergonha na cara, de hombridade. Coisas que, de fato, nos façam abandonar tais meninices.

Caso contrário, salve-se quem puder! Porque ser diferente por aqui é ser anormal.

- 25/01/2010 -

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por que ir à igreja é o menor dos seus problemas

por Paulo Brabo


Estou inteiramente convicto (e já devo ter deixado suficientemente clara essa posição) de que a fidelidade de uma pessoa ao ensino, à herança e às expectativas de Jesus não tem nenhuma relação com a assiduidade da participação dessa pessoa nas atividades de uma agremiação religiosa de sua escolha. Sou ao mesmo tempo obrigado a apontar constantemente, através de citações e circunlóquios, que nada há de novo ou de original nessa idéia aparentemente revolucionária. Seria especialmente inexato chamá-la de revelação recente, visto que essa mesma noção tende a voltar periodicamente à tona ao longo dos séculos, e já esteve presente, por exemplo, na boca coletiva de Erasmo, de Tolstói, de Dostoiévski, de H. G. Wells, de Harnack, de Feuerbach, de Kierkegaard, de Simone Weil, de Bonhoeffer e – ainda mais tremendo e prenhe de consequências – do próprio Jesus, de seus primeiros seguidores e de seus primeiros biógrafos.

Por outro lado, é inteiramente natural que a idéia soe inédita e subversiva a cada vez que é articulada. Porque, se for verdade (como vejo que é), e se for cada vez mais aceita como verdade (como penso que está sendo, e por inúmeros motivos), haverá portentosas consequências para todo mundo.

Haverá, por exemplo...

Haverá, por exemplo, graves consequências para as próprias agremiações de que estamos falando. Outro dia alguém me escreveu, em tom de jocosa provocação, perguntando o que deveriam fazer os pastores evangélicos se todas as suas ovelhas seguissem os passos do Paulo Brabo e deixassem sumariamente de frequentar suas próprias igrejas. A resposta, que mandei imediatamente, não poderia ter sido mais enfática: “deveriam, evidentemente, tomar por concluída a sua tarefa!”

Se essa noção for sendo aceita como verdadeira, haverá ainda toda uma gama de consequências para os próprios frequentadores e ex-frequentadores de igreja, bem como para os candidatos a uma coisa e outra. Em especial, o que persiste no ar neste momento (em que um número cada vez maior de cristãos parece estar inteiramente pronto a debandar sensatamente do jugo da formalidade eclesiástica e abraçar a vertiginosa vocação do cristianismo secular) é a tentação de pensar que o ato escrupuloso e heróico de deixar de ir à igreja representa o atingimento de uma nova e notável estirpe de maturidade espiritual, um nirvana ao qual a massa dos igrejeiros, em sua cegueira e obtusidade, parece estar tão distante de alcançar.

É hora, evidentemente, de tratar deste assunto, e esta é a justificativa destas reflexões. Porque pode ser que você sinta-se finalmente pronto para dar o definitivo e corajoso passo na direção de Deus e para longe da religião; talvez você sinta-se enfaticamente chamado a participar da esclarecida elite dos que entenderam a mensagem secreta de Jesus e estão prontos a abraçar as consequências rigorosíssimas desta gnose; talvez você sinta-se inequivocamente desafiado a abandonar os confortos da igreja institucional em favor do cristianismo puro e simples daquele que não tinha, não tem e não terá onde reclinar a cabeça.

Pois se você se encaixa neste perfil, jovem candidato, o que você precisa ouvir é que a motivação legítima para abandonar a instituição deve ser a custosa consciência de não ser melhor do que ninguém, e não a gostosa conclusão de ter alcançado maior compreensão do que alguns; deve ser a insana disposição de abraçar a comunhão com todos, não a elite com uns poucos; deve nascer de uma nova capacidade de encontrar sensatez em todas as tradições religiosas, e não de uma velha habilidade de apontar adequadamente os defeitos da sua. Deve estar relacionada à vontade de abrir todas as portas, e não ao alívio de ver fechada uma. Antes de decidir deixar de fazê-lo, é preciso sacar que frequentar uma igreja é provavelmente o menor dos seus problemas.

A verdade, incrivelmente, é que Jesus não veio libertar você ou quem quer que seja daquilo que costumo chamar de igreja formal ou institucional.

Ele deixou claro, e disso não deve haver dúvida, que cada seguidor seu deve ser capaz de abraçar simultaneamente o peso da liberdade e a graça da responsabilidade. Ele chegou a dizer que este seria um caminho estreito, adotado por poucos ou com muito custo, mas não chegou a dizer onde o caminho levaria ou o que exigiria – provavelmente porque cada um teria de encontrar sua própria resposta, e no final haveria uma resposta para cada pessoa. Ele sem qualquer dúvida denunciou espetacularmente as armadilhas e tentações da religiosidade formal e mostrou-se invariavelmente pronto a criticar os religiosos profissionais em sua missão autoimposta e diabólica de semear a culpa e endossar a opressão. Por outro lado, e deve ser a hora de enfatizarmos isso, Jesus não chegou a convidar uma única pessoa, fosse um judeu trêmulo ou um carola romano pagão, a abandonar ou rejeitar sua própria tradição religiosa.

A tremenda singularidade dos evangelhos não está na revelação de que Deus não exige os sacrifícios da religiosidade e não encontra prazer neles; isso os profetas haviam deixado suficientemente claro quatrocentas páginas antes. A reviravolta trazida pelo exemplo, pela palavra e pela pessoa de Jesus é, como em tudo que diz respeito a ele, ao mesmo tempo mais exigente e mais sutil; é ao mesmo tempo mais pessoal e mais universal. Jesus não veio libertar o homem religioso das instituições religiosas, veio libertar a humanidade inteira de um paradigma ainda mais debilitante e infantilizante, de uma visão de mundo que chamarei, em regime temporário e na falta de melhor termo, de espiritualidade devocional.

Em tudo que faz e diz Jesus ao longo dos evangelhos promove a demolição dessa estirpe devocional de espiritualidade, propondo em seu lugar uma nova e revolucionária alternativa – uma espiritualidade, por assim dizer, existencial. Ao longo desta série de artigos quero deixar claro esta distinção e este método.

O fato é que a espiritualidade devocional é de tal modo insidiosa que você pode abandonar a igreja formal e ainda permanecer inteiramente aleijado pela espiritualidade devocional; em contraste, há os que permanecem voluntariamente debaixo das disciplinas (sempre arbitrárias) da instituição mas já foram inteiramente salvos das cadeias e escamas da espiritualidade devocional, e estes de nada mais precisam ser libertos. É por isso que é preciso ficar claro que deixar de ir à igreja não resolve nenhum problema e não envolve mérito algum. Frequentar a igreja é nada, e deixar de fazê-lo nada é; pelo contrário, sete demônios novos podem estar prontos para assumir o lugar daquele que você pensa que expulsou.

Aquilo de que precisamos ser salvos é da espiritualidade devocional – em favor de uma espiritualidade essencial e existencial, e isso pela exposição ao espírito subversivo de Jesus. É verdade que, em termos estritos, nenhuma manifestação exclusivista e proselitista de religião formal sobreviverá (e estou agora esperando que tudo dê certo) à vitória final da espiritualidade existencial. O que teremos na conclusão será uma forma inegociavelmente generosa e inclusiva de ortodoxia, mas esta é outra história. A missão de Jesus não é acabar com a religião. Embora a capitulação da religiosidade seja o resultado inevitável da assimilação universal da sua mensagem, seu cerne pulsante reside em outro lugar: no convite, no anúncio e na iminência do reino de Deus.

O que posso adiantar é que a espiritualidade devocional, que Jesus veio abolir, procura se expressar e se manter inteligível e relevante através de palavras e conceitos, e a espiritualidade existencial só sabe fazê-lo através de pessoas. A espiritualidade devocional procura encontrar Deus em todo lugar; a espiritualidade existencial procurar fornecer Deus a todos. A espiritualidade devocional tem sonhos e escrúpulos, a existencial não tem ilusões; a espiritualidade devocional pede confortos para si, a existencial provê conforto para os outros; a espiritualidade devocional submete-se à ilusão da vontade do grupo, a existencial exige o preço do autoconhecimento; a espiritualidade devocional busca sinais de que Deus esteja ouvindo, a existencial busca fornecê-los. A espiritualidade devocional almeja a intervenção de Deus e o controle do homem, a espiritualidade existencial quer a intervenção do homem e o reino de Deus.
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