quinta-feira, 4 de março de 2010

DE DENTRO DO SER

por Riva Moutinho


Do lado de fora da Floresta uma selva de pedra devora os sonhos de Zé Marinho. Nasceu na rua, cresceu numa favela, aprendeu todas as manhas do ganho fácil do mundo na Febem, onde internado ficou por quase dois anos. Na maioridade decidiu que a cidade não seria o seu lugar. Escolheu uma estrada e caminhou até quando não havia mais fôlego para continuar. Avistou uma floresta, uma caverna; estabeleceu que ali seria seu lugar de morada e dos anos que se seguiram, todos foram na obediência rígida que do mundo se afastaria.

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua

Fruto de um relacionamento alcoólico entre os pais moradores de rua, Zé Marinho conheceu a rua no dia que nasceu. Impossibilitado de freqüentar regularmente uma escola, vendia balas, bombons e fazia toda sorte de malabarismos nos sinais a fim de conseguir algum trocado. Um dia voltando para a favela que morava; policiais numa batida de rotina o levaram como suspeito de vender drogas em uma das esquinas da região. Sentenciado a um crime que nunca cometeu, sofreu na Febem e aprendeu que a vida era mais vida pra quem sabia ser esperto e que esperteza significava malandragem e que malandragem era um ato cometido por todos inclusive por engravatados, policiais, políticos, religiosos... mas apenas pessoas como ele pagavam por ela, mesmo sem ter cometido.

Quando o soltaram passou em casa e descobriu que seus pais, que nunca o visitaram, não moravam mais por lá. Sem saber o paradeiro deles e sem, absolutamente, nada; decidiu tentar procurar outro mundo antes que a vontade de desistir do mundo em que vivia tivesse a coragem de se tornar realidade.

No caminho pela estrada escolhida recebeu poucas ajudas, muitos insultos e apanhou várias vezes. Cansado e deitado próximo aos matos na beira da estrada num sol de quase 40 Graus, assustou quando uma senhora de idade bateu a porta do seu carro deixando próximo a ele, uma cesta com bolos, biscoitos e pães, além de muita água e suco. Este gesto o fez agradecer a Deus pela primeira vez em sua vida e o deu forças para caminhar por mais alguns quilômetros até encontrar a floresta que seria, por um longo tempo, seu mundo de sobrevivência.

Anos se passaram, até que um dia Zé Marinho foi surpreendido por um senhor que entrou na floresta para avaliar o local, pois próximo dali havia uma fazenda que ele comprara. Curioso e cuidadoso, seu Beto procurou fazer amizade com Zé Marinho e dia após dia ia descobrindo a história dele. Tentou levá-lo várias vezes para a fazenda, mas todas falharam.

Certo dia, Seu Beto, viu Zé Marinho espiando da janela do lado de fora. Sem assustá-lo chamou-o para tomar um café e, pela primeira vez, depois de muitos anos, ele sentou numa cadeira e, pela primeira vez em sua vida tomou café na mesa como uma família. O choro compulsivo de Zé Marinho encheu o casarão antigo e levou às lágrimas a família de Seu Beto.

Cinco anos mais tarde, Seu Beto faleceu por causa de um infarto fulminante quando caminhava pela sua propriedade. Sua família cumpriu seus desejos pós morte e Zé Marinho permaneceu como administrador da fazenda.

Por muitos outros anos, ele serviu aquela família com toda intensidade do seu ser. Foi pai, amigo, conselheiro, administrador, servo, guarda-costas... e incentivado pela família do Seu Beto, todos resolveram conhecer o lugar de onde Zé Marinho saiu.

Poucas casas naquela favela lembravam seu tempo, nenhuma pessoa daquela comunidade sequer imaginava quem era ele. Com o coração apertado e a voz embargada, Zé Marinho reconheceu, por detalhes, o lugar de onde saiu. Impossível foi conter as lágrimas e uma mistura de sentimentos o envolveu, bem como vontades de rever alguém conhecido ou, quem sabe, seus pais.

Uma senhora deitada na esquina chamou a atenção de Zé Marinho que imediatamente foi ao seu encontro. Procurou saber se estava tudo bem e, tirando tudo o que havia no bolso, entregou a aquela senhora com um sorriso na face.

A intensidade de tantos sentimentos o cansou e o fez dormir pesadamente durante a viagem de volta a fazenda. Acordou apenas para comer alguma coisa numa das paradas do ônibus, onde acabou vendo um senhor magro com roupas muito sujas sentado em um dos bancos, de cabeça baixa. Zé Marinho não disse nada, pegou sua bolsa com roupas no ônibus e entregou para aquele senhor. Uma das filhas do Seu Beto vendo a atitude dele pegou uma boa quantia de dinheiro e deu ao senhor também.

A vida correu dentro da normalidade das responsabilidades da fazenda por muito e muito tempo.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que a senhora que ele ajudou próximo ao local onde morava, era a mesma que o ajudou quando ele estava quase a morte na beira da estrada e que sua atitude a fez procurar ajuda e a rever sua família.

A vida ensinou muito a ele, inclusive a ver Deus contemplando cada criação que Ele fez. Zé Marinho não aprendeu a ingratidão que, insistentemente, tentaram lhe ensinar. Antes procurou fazer para os outros o que com ele, na sua época, a grande maioria não fez.

Zé Marinho terminará sua vida sem saber que o senhor que ele ajudou na rodoviária era o seu pai e que aqueles gestos o fizeram procurar uma clínica onde foi muito bem tratado conhecendo uma família que o empregou como caseiro apenas para lhe dar um lar.

Se por um lado a vida deu ao Zé percalços, por outro lado, Zé deu à vida ações de amor e ensinou que o melhor não é viver uma vida boa, mas fazer a vida ser boa para aquele que Deus chamou de “nosso próximo”.

Riva Moutinho 13/07/2007

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